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Uma Velha Senhora Europeia

Foto: Reprodução/Tribuna

Pode-se dizer que a relação entre a Juventus e a Copa da Europa, atual Champions League, é um tanto "esquisita". Uma obsessão interna até a conquista de 1985 - privada de comemorações diante da Tragédia de Heysel -, dois títulos em oito finais disputadas, um domínio tirânico em território italiano que não se traduz na maior competição de clubes do continente, onde até mesmo rivais locais já levantaram mais vezes a famosa "orelhuda". De 1996 para cá, ano do último título, já se passaram 21 anos...


A revanche de uma noite em Amsterdã



Inevitavelmente, quando acontece de Real Madrid e Juventus se encontrarem na Champions League (e não são poucas as vezes, com vantagem bianconera nas últimas oportunidades), a final de 1998 é a grande recordação. Em especial para os madridistas. Na ocasião, a Velha Senhora de Zidane, Del Piero ou Edgar Davids, comandada por Marcelo Lippi, chegava à sua 3ª final consecutiva, partia como favorita e mostrava-se semanalmente como a grande equipe da Europa, com os títulos de Serie A e Coppa Italia em mãos.

Mas na prática, em um jogo equilibrado, os espanhóis de temporada conturbada alcançaram a conquista com um gol de Mijatovic no 2º tempo, com destaque para a atuação de Fernando Hierro, intimidando Del Piero em sua versão mais indefensável da carreira, mantendo a sua equipe de pé nos minutos mais difíceis, lidando com 32 anos de jejum nas costas e atuações mais discretas de outros nomes importantes como Redondo, Raúl ou Roberto Carlos. Era a sétima taça merengue.




Mijatovic deixa Peruzzi no chão e marca o gol de "La Séptima" do Madrid
Foto: Reprodução/Goal.com

  

O sorriso mais Allegri


 
Foto: Reprodução/DailyStar

 
Em resumo, o desafio de Massimiliano Allegri ao chegar em seu novo clube era dar continuidade a um projeto campeão pelas mãos de Antonio Conte, evitando o seu estancamento, e somando a isso um contundente passo à frente no que diz respeito a competir na Europa, o que faltava anteriormente. E a verdade é que, independente do que acontecer a nível de resultado em Cardiff, ele cumpriu.

Nesses três anos sob o comando do treinador natural de Livorno na Toscana, aproveitando-se da herança positiva, fazendo evoluir o que precisava evoluir. Criando e recriando diante de saídas e chegadas de jogadores importantes, entre esquemas com 2 ou 3 zagueiros, com mais ou menos atacantes... a Juventus deu sequência aos títulos nacionais e consolidou-se como uma das postulantes quando se trata de Liga dos Campeões. Repetindo em 2017 a sua chegada à final, assim como há dois anos.

Ao mesmo tempo que Allegri trabalha da forma mais metódica possível o aspecto tático da coisa (inclusive, e talvez principalmente, quando parte de uma inferioridade futebolística), sabe dotar seu jogadores de calma e autoestima, o que ativa a confiança e a hierarquia necessária para afrontar uma decisão contra o rival mais vitorioso em dita competição.


O sistema defensivo bianconero


O futebol é parte integrante da sociedade. E em determinados casos, notamos o quão claro ele pode estar condicionado por costumes locais, fatos históricos que, em teoria, nada têm a ver com o esporte. No caso da Itália, território dado a invasões ao longo dos séculos, defender e guardar o que é seu é uma ideia que corre junto ao sangue pelas veias de um nativo, molda o seu caráter.

Certo que esta Juventus, como quase todas as outras em seus quase 120 anos, não é uma equipe de Catenaccio puro. E está bem longe disso, inclusive. Bem como, em uma análise de rigor mais tático, a obra de Massimiliano Allegri não é - por sistema - a "perfeição" defensiva de um Atlético de Madrid dos melhores dias com Diego Simeone, ou mesmo de uma Internazionale pelas mãos de José Mourinho, a última squadra do calcio a alcançar o topo na Europa. Mas futebol também gira em torno de sensações, fatores que alçam a confiança. E na Juve, a resposta e a credibilidade gerada quando o atacante rival se vê de cara com os seus zagueiros, em uma situação no limite, tem sido no mais alto nível mundial.

Na atual Liga dos Campeões, a estatística de apenas um gol sofrido nas fases de mata-mata passa por fatores como uma pressão que mais preza por forçar o erros rivais do que o roubo de bola, ou a busca vitoriosa pelo controle do ritmo das partidas, jogar em cenários que lhe favoreçam. Como na semifinal contra o Mônaco, equipe dada ao descontrole, ritmo ofensivo e troca de golpes, que se viu "travada" em seus interesses. Mas especialmente, no nível de acerto individual em sua própria área quando há a exigência. De Barzagli, Bonucci e Chiellini exigindo algo a mais do adversário em seus últimos toques, das defesas pontuais e decisivas de Buffon, do clima de segurança que contagia jogadores como Alex Sandro e Pjanic, que poderiam não estar à altura. Taticamente, a Juventus cede espaços e recepções em sua zona de volantes, pode ver o seu bloco defensivo ser movido por equipes de bom manejado com a bola, que abrem o campo e exigem maiores ajudas laterais dos zagueiros juventinos. E mesmo assim, essas convenções estão sendo anuladas pelo inato talento defensivo, que impõe a sua lei.


A última chance de um mito?


 O Canto do Cisne de uma muralha à italiana
Foto: Reprodução/Goal.com

Gianluigi Buffon é considerado por muitos, e com bons argumentos, o melhor goleiro da história do futebol mundial. Na Juventus desde 2001, quando o Zinedine Zidane ainda jogador deixava a "21" da equipe italiana pela camisa "5" merengue, esteve em campo nas finais de Liga dos Campeões de 2003 e 2015, saindo derrotado em ambas.

Para ele, a conquista da Champions League em 2017 seria o fechamento de um ciclo, a coroação final de uma carreira já consagrada com um título mundial de seleções, todos os demais títulos, e uma série de defesas com uma imponência invejável. Com 39 anos de idade, o goleiro que beirou a perfeição nos fundamentos de sua função já não conta com a capacidade física de antes. Está mais lento e pesado. Coisas do sempre vitorioso Senhor Tempo. Mas como um eleito dos deuses do futebol, um dotado da natureza que lhe foi bondosa na criação, Gianluigi segue estando no lugar e hora pontuais, decidindo eliminatórias europeias em um período onde goleiros que começam a se destacar, ainda nasciam quando Buffon já mostrava o seu dom.


Um bromance à moda Juventus


Em Barcelona, ficou conhecido como o grande parceiro futebolístico de Lionel Messi. Responsável pela maior quantidade de passes para gols do gênio argentino em toda a carreira do mesmo, Daniel Alves desembarcou em Turim envolto em discussões em torno de sua transferência do time catalão, mas ainda com a ideia de que havia lenha para queimar, até pela disposição do próprio jogador brasileiro em provar-se dia após dia.

E desde o anúncio de sua contratação, imaginava-se uma relação interessante em campo com outro argentino, de rotina um tanto semelhante embora mais "humanizada". E este atende pelo nome de Paulo Dybala. Entre ambos, muito se explica a capacidade da equipe italiana com a bola nos pés, o entendimento do jogo, os momentos e tempos corretos de quando acelerar e quando frear uma ação ofensiva, dando o maior dos sentidos aos primeiros e precisos passes de Bonucci. E assim, ao final, ativando os demais argumentos presentes, como o desmarque de Higuaín e sua capacidade goleadora, ou a chegada em diagonal na área do soldado Mandzukic (atacante dos mais esforços a nível de sacrifício defensivo de todos na elite).


Foto: Reprodução/Goal.com
 

Juventus e Real Madrid disputarão nesse sábado a coroa do futebol europeu. Um ciclo já imortalizado em Lisboa e Milão, de Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos, Gareth Bale, Karim Benzema, Luka Modric... diante de outro que, com diversas diferenças entre os jogadores que entraram em campo em Berlim (na final de 2015), busca essa eternidade, resistir por 90 ou 120 minutos com a noção que deve ser aqui, agora, já... sem confundir-se em suas origens e fortalezas, mantendo a hierarquia de uma velha e respeitosa senhora...

 

Uma Velha Senhora Europeia Uma Velha Senhora Europeia Publicadas por Unknown em junho 02, 2017 Mais 5