Modric: "Eu nunca ouvi o Cristiano dizer que quer ir embora"
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| Foto: Getty Images Sport/VI-Images |
Neste sábado (08), Luka Modric, três vezes campeão da Champions League com o Real Madrid, concedeu uma longa entrevista exclusiva para o jornal Marca e falou de tudo e mais um pouco sobre sua carreira, clube e jogadores merengues, entre outros temas que envolvem sua vida.
O que este Real Madrid teve de diferente com relação aos outros anos para conquistar o doblete?
"Uma equipe muito larga este ano. Para mim, esse foi o mérito do treinador. Ele soube tirar o máximo, o melhor, de cada jogador, e isso nos ajudou muito para chegarmos na reta final da temporada em uma boa forma. Todos nós estivemos em um nível físico alto. Este foi o diferencial em comparação aos outros anos, em que em alguns chegamos cansados na reta final. Agora com estas rotações foi diferente. O que também ajudou o Mister, porque todos entraram bem e ajudaram a equipe. Assim foi mais fácil fazer o que Zidane queria. Esses foram os segredos para o doblete."
É a melhor equipe e vestiário em que você já participou?
"É difícil de dizer, mas quando vê o que conquistamos, pode-se dizer que sim. Cada jogador tem uma qualidade tremenda, todos os 24, por tudo isso pode-se dizer que sim."
O que aprendeu neste ano?
"Nada especial. Só reforçou a ideia de que a equipe é o mais importante. Cada jogador, cada pessoa que participa do grupo, é importante. Em primeiro lugar, o treinador queria deixar essa mensagem. Isso nós aprendemos. A equipe."
Assistiu a reprise da final?
"Não, completa não, só os melhores momentos, inúmeras vezes."
Das três Champions, com o que você fica de cada uma?
"Fico com o caráter da equipe, o espírito, não se render nunca. Quando você olha como conquistamos, especialmente a de Lisboa e Milão... na de 2014 estávamos quase derrotados, mas nunca deixamos de acreditar que poderíamos mudar aquela situação, logo esse caráter. Estar tranquilo em momentos como a decisão por pênaltis no San Siro. E na terceira, tudo isso e nossa tremenda qualidade. É com o que fico dessas três conquistas."
Sentiu-se oprimido ou nervoso por não poder celebrar naturalmente a conquista no gramado de Cardiff?
"Sim, sim, foi uma confusão. Não pudemos comemorar normalmente, com nossa família, torcida... não sei quantas pessoas estavam ali no campo. Fotógrafos, câmeras... não nos deixaram comemorar em paz com a família e com a torcida. Mas o importante era ganhar e aí está."
Quando você olha para o passado e recorda do primeiro ano no clube... sofreu muito?
"Não, não sofri muito. Eu nunca duvidei de mim, sabia que eu teria sucesso no Madrid, mas como não tive pré-temporada e cheguei em um clube que desde o primeiro dia quer que você esteja no mais alto nível, que tem uma exigência incrível, sabia que iria sofrer um pouco. Mas também desfrutei desses momentos, desde o primeiro dia, quando encaro coisas difíceis não deixo de acreditar em mim. Trabalhava mais para trunfar. Toda essa situação de início fez eu aprender muito e me ajudou para o futuro."
Como a vontade e a ambição voltam para seguir buscando mais títulos?
"Muito fácil. Quando ganha algo uma vez, duas, três e tem essa sensação de vencer... isso te empurra outra vez para buscar mais. Quer ganhar mais e mais. Nunca cansa de ganhar. Estamos em um clube que sempre quer o melhor, que quer ganhar tudo o que for possível e os jogadores têm o mesmo pensamento."
Portanto não acredita que a equipe irá entrar um pouco relaxada nesta temporada?
"Eu creio que não, posso falar por mim, que tenho vontade de começar a pré-temporada e voltar a trabalhar. Quero voltar a sentir o que sentimos quando ganhamos. Podemos ter outra temporada cheia de conquistas. Não vamos pensar que estamos cansados de ganhar. Isso porque o clube te deixa relaxar, pois a exigência é tremenda. Antes de chegar ao Madrid eu já sabia disso. A torcida também não te deixa relaxar. As coisas são esquecidas rapidamente. Se não ganha em um ano, já começam as dúvidas. E nós não podemos permitir isso. Temos que seguir ganhando e aproveitar esse momento porque não vai durar para sempre. Somos uma equipe incrível e não tem motivo para não seguirmos conseguindo coisas este ano e no futuro."
Por que foi difícil reencontrar a forma após a lesão?
"Primeiro eu tive uma lesão no joelho, voltei bem, em boa forma e quando melhor eu estava sofri a segunda, a do adutor. E me custou um pouco voltar ao ponto em que eu estava. Com o trabalho individual e com a ajuda de todos, dos companheiros, do staff. Cheguei em uma forma muito boa ao final. É normal quando tem uma lesão e logo depois tem outra que encontre dificuldades para voltar ao normal. Mas eu sabia que ia voltar bem."
As rotações afetaram ou não acabar os jogos ajudou a encontrar sua boa forma?
"Pode ser as duas coisas. Me ajudou a chegar em um bom estado na reta final. Eu falava muito com o mister, staff, preparadores físicos, para melhorar minha forma. E eu não tinha medo, porque tinha a confiança de todos e isso ajuda."
Qual foi a importância de Antonio Pintus (preparador físico do Real Madrid) nesta temporada?
"Para mim, muita. Quando vê que chegamos na reta final no melhor estado físico, isso se deve muito a ele e ao staff. O que criamos aqui também ajudou, mas Pintus fez um grande trabalho."
Tem uma jogada na final em Cardiff que mostra seu melhor estado físico, quando saiu em velocidade para o terceiro gol, marcado por Cristiano Ronaldo.
"Sim, foi uma situação em que roubei a bola, passei para o Carvajal que me devolveu e eu sabia que algo bom podia sair dessa jogada, dei meu máximo. Cristiano estava lá e o resto todos já sabem..."
4-3-3 ou 4-4-2?
"Para mim não é uma questão de números, o importante é como nós jogamos como equipe. Se estamos todos juntos, se lutamos como uma equipe, atacando e defendendo, é mais importante que um 4-3-3 ou 4-4-2. Temos que estar juntos, se todos nós fazemos o nosso trabalho e ajudamos os companheiros, é muito difícil não ganharmos."
O que pensava quando via tantas mudanças nas escalações?
"A princípio não pensava que fosse tão bom para a equipe. Quando joga um jogo sim outro não, pensa que vai perder algo. Mas o Zidane demonstrou que é possível e nos ajudou a ganhar todos esses títulos. Agora penso que está bem, mas também ajudou os outros jogadores que entraram em campo, ganhamos partidas com eles também. Logo começaram a falar de equipe A e B, mas nós não pensamos assim, somos o Real Madrid, uma equipe. Qualquer jogador que entra joga bem. Nos dá confiança. Por isso temos esses sucessos, temos que seguir fazendo o mesmo."
Gostaria de usar a 10, assim como com a Croácia?
"Se me perguntassem isso há 3 anos, eu diria que sim. Mas agora não me importo tanto com esse número, gosto do 19. Não planejo mudar."
Você sairia do Real Madrid por vontade própria? Como aconteceu com Özil e Di María e que pode ocorrer também com Morata e James...
"Tenho certeza que não é uma decisão fácil sair do Real Madrid. Quando sai daqui, automaticamente nada é o mesmo. Agora está no melhor time do mundo, isso é certeza, e daqui só vai para baixo. Cada um tem suas razões e motivos, eu não vejo para mim, se eu continuar assim vou fazer o possível para ficar, mas as coisas do futebol mudam rapidamente."
Você contrataria alguém ou é muito difícil melhorar?
"É difícil. O que o clube fez nos últimos anos é um bom caminho para as contratações (se referindo aos jovens). Eu só contrataria se fosse melhorar bastante o que tem. É difícil encontrar jogadores que cumpram isso, que nos melhorem. Temos uma equipe muito boa. Clube e o treinador sabem o que necessitamos. É decisão deles. Nós aceitaremos as contratações e faremos de tudo para que se adaptem."
Como encara uma pré-temporada tão exigente? United, Barcelona, City, duas Supercopas...
"Não é fácil, porque sabemos que com o Pintus vamos ter uma pré-temporada muito dura como no ano passado. Mas é parte do nosso trabalho e temos que passar por tudo isso, ter essa base para o restante da temporada. Há partidas difíceis desde o início, mas é o melhor, cada futebolista prefere que joguemos contra o United ou Barcelona... é algo único que qualquer jogador deseja."
Tem mais mérito este ciclo tendo em conta que enfrenta o Messi?
"Nós só estamos focados em nós mesmos. Não pensamos em outros clubes. Queremos fazer coisas da nossa maneira, o melhor possível, é o nosso pensamento e política."
Quando está em campo, sente que com essa camisa tem mais chances de ganhar?
"Te dá muito, a grandeza do Real Madrid, quando entra no campo sabe que tem opções para ganhar, mas não é suficiente apenas o escudo, tem que demonstrar em campo. Tenho certeza que as outras equipes nos respeitam muito, mas que entram em campo com 200%, e se não estamos no nosso nível, acabam nos complicando. O escudo mostra que é uma equipe vencedora. Quando o Madrid chega à final da Champions ou da Copa do Rei, quase sempre ganha. Das últimas seis finais de Champions que disputou, o Madrid ganhou as seis. Tenho certeza que todos levam isso em consideração, o Madrid é uma equipe vencedora. Mas isso não vale nada se não demonstrarmos em campo, se não fazermos como na última temporada. Tudo está no campo."
Vê mais próxima sua saída do Real Madrid? Até quando que se vê jogando?
"Ainda não planejei isso. Estou seguro, não vou dizer um número, quantos anos me restam no futebol. Mas se sigo trabalhando assim, e me cuido como até agora, claro que gostaria de aposentar aqui, é o meu sonho, porém vamos ver o que vai acontecer. No Madrid a exigência é máxima e sempre tem que estar no topo. Se não está, chegam as dúvidas. Se sigo trabalhando assim, em partes individuais, acredito que tenho muitos anos neste nível pela frente. Onde estou agora me fez desfrutar a cada dia, cada treinamento e partida. E não quero perder isso. Lutarei para estar aqui o maior tempo possível. Só tenho o Madrid na minha cabeça."
Pode explicar sua situação jurídica na Croácia?
"Essa é uma situação desagradável e complicada, mas tenho e consciência tranquila. Agora tenho que esperar que isso termine rápido e nada mais. Não posso falar mais desse tema, não é agradável, é complicado, é algo que aconteceu há muitos anos e o que passa ao redor é muito duro, mas eu aguento muitas coisas em minha vida, e tenho certeza que vou aguentar essa. Que termine rápido para esquecê-la. Agora há opiniões contra mim sem saber como são as coisas. É duro para mim. A seleção? Não tenho um pensamento definitivo. Vamos ver. Agora quero me concentrar na pré-temporada com o Real Madrid, preparar-me bem."
Fala de futebol com Zidane?
"Sim, bastante. O Mister também gosta. Falamos de tudo. Algumas vezes do passado, gosto de saber de algo dele, de como fazia as coisas. Dá gosto falar de futebol com ele, sabe muito. Com tudo o que foi e é agora, é um orgulho e te ajuda com seu pensamento em campo."
Como surgiu sua amizade com Sergio Ramos?
"Naturalmente, espontânea. As amizades quando nascem assim são melhores. Temos uma relação muito boa, sou feliz de ter ele como amigo."
O que vocês dois têm em comum?
"O caráter, a forma de ser, sempre posso contar com ele, para me ajudar em situações difíceis, em todos os aspectos. Gosto de seu caráter."
Também imita muito bem a sua voz?
"(Risadas) Sim, ele gosta, eu falo assim e todos me imitam. É bom, não acontece nada por me imitarem, é divertido."
Como capitão, o que Sergio Ramos tem com relação aos demais?
"Não gostaria de comparar com outros. Srna foi um capitão muito bom, top, e tenho amizade com ele. Sergio como capitão sempre pode contar com ele, sempre está ali, pela equipe, para lutar, seu caráter, nunca se rende, deixa tudo em campo... é o melhor capitão possível para nós."
Acredita que falta mais liderança para Bale no Real Madrid?
"Ele sempre foi assim. No Tottenham também. É parte de seu caráter. Ademais, ele faz de tudo pela equipe e isso é o mais importante, ele não quer estar acima da equipe, é muito humilde e faz de tudo pela equipe. É sua forma de ser, não vamos mudá-lo, é assim. Temos que aceitá-lo como é. Mas ele dá tudo pela equipe e sofre. Teve um ano muito difícil, com muitas lesões, mas começou muito bem a temporada, era nosso melhor jogador. E desde lá começou a ter lesões e é normal que não consiga assim demonstrar todo o seu futebol em campo. Para ele o mais importante é estar saudável e espero que possamos ver um Bale melhor nesta temporada."
Está preparando Kovacic para ser seu herdeiro?
"Kovacic é o Kovacic, ele tem suas virtudes, dá para ver em campo. Não há que colocar pressão sobre ele dizendo que é meu herdeiro ou de outro jogador. Temos que deixá-lo com seu estilo de jogar. Sempre confiei nele, e no futuro vai ser jogador muito importante para o Real Madrid."
Você se surpreendeu com Marco Asensio?
"Sim, um pouco. Eu sabia que tinha talento em uma pré-temporada há dois anos. Mas por ser tão jovem, eu não pensava que ia ter uma temporada como esta. Foi muito importante, quando entrou fez grandes coisas. Tenho certeza que no futuro seguirá sendo esse jogador."
E Cristiano Ronaldo? Como viveu essa novela de que ele iria embora?
"Eu nunca ouvi Cristiano dizer que quer ir embora. No futebol tudo é possível, mas creio que a conexão entre ele e o clube é tão forte que seguirá sendo jogador do Real Madrid."
Você joga mais tranquilo com a presença de Casemiro?
"Sim, ele é um jogador muito importante para nós, não só porque joga bem defensivamente e corre muito, mas também porque sabe jogar, faz gols, como na final em Cardiff e em outros jogos importantes. Fico feliz por ele, é um menino sensacional, uma pessoa muito humilde e boa. Conseguiu tudo com seu trabalho."
Modric: "Eu nunca ouvi o Cristiano dizer que quer ir embora"
Publicadas por João Victor Sanches
em
julho 09, 2017
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