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A última impressão é a que fica?

Diante de uma mudança de ares iminente, Pepe resolveu fechar bem a porta antes de sair.

Sem acertos com a diretoria,  zagueiro luso-brasileiro vai deixar o Real Madrid após 10 anos no clube.
Foto: Reprodução/Getty Imagens
Dois dias após a conquista de um doblete, um dia após ser ovacionado por um estádio lotado nas comemorações no Santiago Bernabéu, a menos de um mês para a conclusão de um ciclo de uma década no clube blanco, o zagueiro fez aquilo que não é inédito, mas que causa decepção a cada vez que se repete. Que não apaga sua história no time, mas deixa o adeus com gosto mais amargo.

Em entrevista ao programa “El Partidazo de COPE” anteontem(4), Pepe achou refúgio em alguns minutos de publicidade para difundir suas mágoas e insatisfações com o clube antes do encerramento de seu contrato no final do mês. Da diretoria à Zidane, geralmente aclamado entre outras razões por unir o vestiário e saber gerenciar o grupo, ninguém saiu ileso.

A atitude veio para muitos como um choque. Símbolo de madridismo, entrega e cojones, Pepe era visto por muitos como um exemplo indiscutível de como se portar enquanto se veste a camisa branca, apesar da história nem sempre ter sido um mar de rosas. A transição até alcançar o patamar de referência começou no extremo oposto, um processo quase que da água pro vinho.

E toda a lealdade que Pepe dedicou ao Madrid durante seus dez anos foi no mínimo recíproca ao longo deles, se não ainda maior do que o que se espera de um clube de tamanho escalão.

Antes, durante e principalmente depois da agressão do zagueiro ao jogador Casquero, em 2009, e da consequente suspensão de dez jogos, o Real Madrid mostrou seu comprometimento com Pepe, defendendo inclusive o indefensável. Ao longo de anos de uma campanha vigilante — que envolvia chamadas de “assassino" ao jogador, rótulos associados à violência e um ódio coletivo pela sua permanência na elite do futebol europeu — o clube, cuja imagem é uma das maiores preciosidades, não abriu mão do que podia facilmente ser considerado um peso descartável.

A aposta do Madrid se pagou, principalmente após o jogador que era chamado de animal florescer à sua melhor forma, transformação que se deu em parte na Era Mourinho e se estendeu até a última temporada. Pepe amadureceu, elevou seu nome como um dos melhores zagueiros em dupla com Sergio Ramos, inclusive superando aquele que havia feito sua titularidade ser questionada e surgia como um jovem defensor em ascensão, Raphael Varane.

Titular na penúltima conquista da Champions, em Milão, Pepe viu sua situação mudar no clube ao longo do último ano. Passando parte da temporada fora dos gramados por lesões, o zagueiro foi gradualmente perdendo espaço enquanto Varane naturalmente se estabelecia, apesar de ser bastante válido o questionamento do rendimento do francês em relação às altas expectativas sobre ele. Com a expiração do contrato eminente, Pepe queria uma renovação de dois anos, enquanto o Madrid estava disposto a oferecer somente um ano, com um segundo dependente de rendimento, principalmente pela idade do jogador, já com 34 anos.

O impasse não se resolveu, e Pepe foi forçado a buscar um outro destino — não sem antes dizer em alto e bom tom que sua vontade não foi feita. A insatisfação pode até ser legítima, mas a atitude foi sem dúvidas desnecessária. A porta da frente e um tapete vermelho foram estendidos ao zagueiro, que poderia sair da maneira como muitos sequer sonham em fazer: com dois troféus debaixo dos braços e a aclamação de seu nome ainda ecoando na cabeça.

Entretanto, em tom ressentido, Pepe se distancia não só do Santiago Bernabéu, de Madrid e da Espanha, mas também um pouco dos corações de uma torcida que ele passou uma década conquistando. A gratidão ao jogador permanece, por tudo que fez, e muitos torcedores escolherão olhar adiante dessa última atitude e deixar falar mais alto os momentos bons. Uma pena que o próprio Pepe não tenha sido capaz de fazer o mesmo, e olhar além de si mesmo diante do time que lhe deu tudo e que lhe fez quem ele é.

Opinião de Giovanna Zeloni | Twitter
A última impressão é a que fica? A última impressão é a que fica? Publicadas por Unknown em junho 07, 2017 Mais 5